Tendo passado mais de uma semana do falecimento de Jô Soares, agora já me sinto um pouco mais à vontade para escrever sobre ele. Não gosto de opinar sobre coisas quando todo mundo está falando a respeito, eu geralmente me sinto mais confortável depois de um certo distanciamento temporal, sei lá. Mesmo escrevendo aqui sem grandes pretensões, via de regra prefiro refletir um tanto antes de escrever.
O próprio Jô assinou uma “carta aberta” há alguns anos atrás como “Influenciador analógico”. Liberdade poética para o uso do “analógico” em contraposição ao “digital”, querendo dizer que era das antigas, não tinha redes sociais, e isso tem um significado bastante interessante, eu acho. Jô sempre foi conhecido e elogiado por ser alguém culto, antenado, inteligente, embora – não sei se muitos sabem – não ter nenhuma formação superior. Mas ele era um leitor ávido, um curioso sobre tudo, que ia atrás de se informar profundamente sobre qualquer assunto que lhe interessava. Poliglota, viajado, conhecia e sabia conversar e opinar, portanto, sobre vários e vários assuntos. Por que então ele se manteve “analógico”, há mais de 5 anos depois que seu programa saiu do ar, seguia escrevendo, produzindo, mas perdeu a visibilidade digamos assim, popular, que ele tinha?
Acredito que isso tenha a ver com o nosso mundo atual, dito “digital”. Nesse mundo a informação é rápida, fugaz, superficial, ninguém mais se interessa por entender algo em profundidade, qualquer pessoa sem nenhuma bagagem – e aqui nem restrinjo à bagagem acadêmica – consegue ter uma visibilidade, milhões e milhões de seguidores, tornar-se “influenciador” e muitas vezes propagar desinformação, bobagens, e conseguir ganhar um espaço e relevância que seriam impensáveis em outros tempos. Vídeos e podcasts que podem ser acelerados para ganhar tempo, tornando qualquer um “especialista” em qualquer assunto em pouco tempo. Conteúdo não vende, o que vende é praticidade, velocidade, tempo… Não há mais espaço, hoje, para uma conversa mais profunda, embasada, essa geração já foi, ficou no passado, nos primeiros anos do século… A era da informação imediata nos trouxe acesso praticamente ilimitado a todo o conhecimento gerado no mundo ao longo de séculos, e isso seria potencialmente transformador para que as pessoas – e a sociedade como um todo, em consequência – ficassem mais cultas, com mais sabedoria, certo? Mas não foi isso que aconteceu, muito pelo contrário… Não há mais espaço para pessoas como Jô Soares, um “exibido assumido”, como ele próprio dizia, cujas conversas e intervenções não caberiam num “fio” de Twitter, num vídeo curto do TikTok, YouTube ou Instagram… O formato hoje limita, pede pelo “empacotamento” e pela velocidade, e a superficialidade como consequência. Hoje é isso que vende, e quem quer ou precisa vender precisa fazer nesse formato, dessa maneira…
O mundo de hoje está melhor por conta disso? Eu particularmente acredito que não… Tive o privilégio de conviver com meu avô, um exemplo de cultura geral e bagagem de conhecimento como poucos, e de certa forma minha formação enquanto ser humano foi bastante impactada por isso. Hoje vejo pessoas terminando o curso superior – o que em tese lhes colocaria no nível da elite intelectual do país – que não leem, não se informam ou não se preocupam em se informar, selecionam somente as informações que lhes chegam pelas redes sociais – cujos algoritmos não primam nem um pouco pela pluralidade de fontes, muito pelo contrário, criam bolhas – e vão formando assim a nossa sociedade dita “digital”.
Paradoxalmente, esse mundo não precisa dos velhos influenciadores “analógicos”, com conteúdo, ao mesmo tempo que nunca tivemos tanta necessidade deles, na minha opinião. O mundo precisa de novos Jô Soares, mas não damos espaço a eles…

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